
Cartografia do Desejo e seus Enganos
novembro 18, 2025
Calar rápido o sintoma é silenciar o sujeito junto
novembro 18, 2025Somos lançados no mundo. Ponto. Cada um nasce em um contexto, e, no senso comum, tendemos a acreditar que dinheiro é sinônimo de felicidade e que a escassez de recursos é sinônimo de sofrimento. Mas essa é uma ilusão que nos é apresentada como verdade.
Não estou dizendo que dinheiro não facilite a vida. Pelo contrário: ele abre oportunidades, amplia horizontes e possibilita escolhas. A falta dele, por outro lado, pode gerar estresse, restringir caminhos e até adoecer. Ainda assim, as métricas que realmente importam não têm a ver com conta bancária ou bens materiais; têm a ver com o modo como se vive, com a forma como se constrói sentido e presença, apesar das condições que nos foram dadas.
O dinheiro pode aliviar dores práticas, mas não protege daquilo que é essencialmente humano. Pessoas com alto poder aquisitivo também enfrentam relacionamentos abusivos, dependências, solidão, violência doméstica, doenças crônicas e automutilação. Ao mesmo tempo, famílias com poucos recursos podem ser profundamente amorosas, emocionalmente equilibradas e presentes no cuidado físico, intelectual e afetivo dos filhos. Mesmo com orçamentos limitados, sonham, fazem planos e, diante de cada revés, se reorganizam e se reinventam.
É claro que as desigualdades, a falta de recursos e as dificuldades financeiras são fatores que pesam e podem contribuir para o adoecimento de grande parte da população. Mas o ponto aqui é outro: é equivocado acreditar que o dinheiro garante uma vida plena e sem conflitos, assim como é ingênuo pensar que a pobreza é sinônimo de desestrutura. A vida real não obedece a esse tipo de lógica.
O mundo é imperfeito, cheio de contradições, e o digital intensifica isso ao nos empurrar padrões que não são nossos. Vidas perfeitas, mesas impecáveis, lugares sofisticados, crianças exemplares, casamentos radiantes… tudo isso nos faz sentir inadequados.
A provocação maior é: e se, em vez de nos compararmos a esses padrões, nos colocássemos mais presentes naquilo que é nosso? E se, ao levantar da cama, decidíssemos, nas pequenas escolhas do dia a dia, o que realmente faz sentido para nós, e não para os outros?
Porque autenticidade não é sobre ter tudo perfeito ou viver sem problemas. É sobre existir plenamente na própria vida, construir sentido mesmo diante das limitações e contradições, e reconhecer que a vida que vale a pena é a que a gente cria, não a que nos é vendida como ideal.




