
O que sobra de autenticidade quando a vida nos molda a padrões alheios?
novembro 18, 2025Este é o primeiro texto do nosso blog. Para marcá-lo, escolhi uma pintura de Banksy, artista de rua de Bristol, no Reino Unido. A obra se chama Lovesick Girl, que, em tradução literal, significa “garota doente de amor”.

Ao contemplá-la, fui levada para outro lugar, um lugar de possibilidades. Não me propus a explicá-la, nem a interpretá-la. A arte é, por essência, livre. Não deve ser engessada por significados fixos ou reduções conceituais. Por isso, meu papel aqui não é o de explicar, mas de compartilhar o que se levanta em mim quando me deixo afetar por uma obra.
Mas, afinal, amor nos adoece? Antes de responder essa pergunta vamos falar da paixão, A paixão, essa emoção que irrompe no corpo com sensações intensas, como arritmia cardíaca, aperto no peito, calafrios, sorrisos desengonçados e doses generosas de euforia misturada à alegria, tem sido, ao longo da história, cantada, escrita, desenhada, encenada e estudada.
Contudo, essa euforia, por vezes arrebatadora e deliciosa, que nos lembra da potência de estar vivo, também pode se tornar um caminho tortuoso, tomado por náuseas e mal-estar.
O sentido da palavra paixão no dicionário é descrito como afeto, desejo ou encantamento. Mas, quando a dose transborda, ela pode se transformar em obsessão, um movimento que rouba o sujeito de si e o aprisiona no objeto do desejo.
A obsessão é, muitas vezes, sintoma de desmedida, um querer que ignora avisos, ultrapassa sinais, desrespeita limites. Na tentativa incongruente de buscar afeto onde ele não existe, emerge a angústia. Como um alarme vermelho piscando, ela nos avisa: não estamos enxergando a realidade como ela é, mas fixados em uma ilusão. Agora, talvez faça sentido responder se amor nos adoece ou não. Não, amor não adoece. O que nos adoece é tudo aquilo que nos fere, intoxica, arde, ofende desacata e insulta. Nada disso é amor.
Se buscássemos uma analogia, poderíamos dizer que a existência é como uma casa. Um projeto em constante construção, e nós somos seus responsáveis. Cada um edifica a própria casa com escolhas únicas. Mesmo que por fora pareçam semelhantes, por dentro os arranjos são sempre diferentes.
E, por isso, precisamos de responsabilidade. É necessário aprender a reconhecer quem bagunça nossa casa, quem a invade, quem a danifica, quem a saqueia.
Mas como identificar quando não estamos diante de algo genuinamente bom para nós?
Como não cair nas armadilhas que se disfarçam tão bem de paixão, de amor, de cuidado e encantamento?
Muitas vezes, o que nos confunde é justamente o vai e vem, o ciclo intermitente entre dor e prazer. Vem a acidez nas palavras, o escândalo desproporcional, o ciúme sufocante, o choro que esgota, a desconfiança que corrói. E, quando pensamos em desistir, logo chegam as flores, o sexo envolvente, a ligação carinhosa no fim do dia, o elogio que aquece.
Essa alternância entre afeto e ferida, entre o beijo e a culpa, entre o acolhimento e a agressão, nos desorienta. É como se o alívio entre os golpes fizesse parecer amor o que, na verdade, é apenas intervalo. E assim seguimos presos, não à pessoa, mas à esperança de que os bons momentos se tornem regra, e não exceção.
Mas e quando esse padrão se repete? Uma, duas, várias relações? Costumamos chamar de “dedo podre”, como se fosse má sorte ou destino. Mas, na verdade, é repetição.
Uma repetição que nasce de camadas profundas em nós, lugares ainda não visitados, cheios de inseguranças, ausências antigas, afetos mal costurados. E é sobre esse solo instável que, muitas vezes, começamos a construir a tal casa da existência.
Sem consciência, repetimos. Repetimos. Repetimos.
Podemos até mudar de parceiro, de cidade, de país. Mas, se não fizermos a verdadeira viagem, essa, interna e corajosa, para olhar de frente nosso modo de ser, nossas escolhas e as dores que evitamos sentir, seguimos batendo nas mesmas portas, esperando resultados diferentes.
É preciso criar espaço para refletir, tomar responsabilidade, sustentar e aceitar a angústia inevitável das escolhas. Porque escolher é, sempre, abrir mão de algo. E não, não se pode ter tudo.
É nesse processo, lento, real, doloroso e honesto, que nasce um crescimento autêntico.
Essa autoconsciência que muitos prometem em cursos rápidos na internet, como se fosse uma fórmula mágica. Se fosse fácil, não haveria tanta gente sofrendo. Um processo analítico exige paciência. A vida não se resolve em três minutos como um miojo.
A moça que vomita corações na pintura talvez esteja intoxicada.
Não de amor, mas de desafetos. Gente que entrou em sua casa com os pés sujos de lama. Que se deitou em sua cama coberto de graxa. Que lambuzou sua cozinha, deixou a pia cheia de restos e ainda levou consigo algo de valor, deixando marcas fundas, como facas cravadas na memória. Porque há visitas que não vêm para somar. Vêm para nos ensinar, pela dor, o quanto precisamos aprender a fechar a porta.




