
O que sobra de autenticidade quando a vida nos molda a padrões alheios?
novembro 18, 2025
Performance ou presença? O dilema das escolas de hoje
novembro 18, 2025Esse tema é extenso e rende muitos desdobramentos, “dá pano pra manga”, como dizia o ditado popular antigo. Por hoje, quero refletir sobre o fato de que o sintoma está sempre tentando puxar uma conversa conosco. Ele nos diz algo que, muitas vezes, insistimos em não ouvir. Vivemos na lógica do nosso tempo: correr para destruir o que sentimos, com o objetivo de eliminar qualquer incômodo. Seguimos o padrão do mercado moderno, que valoriza consertar e tornar tudo útil.
Se o sintoma está nos avisando de que algo precisa ser ajustado em nossa rotina, tratamos de extirpá-lo para continuar caminhando sem muita reflexão. Os sintomas emocionais, porém, muitas vezes surgem de forma sorrateira: irritabilidade, insônia, falta de ar, vontade de não sair da cama. Tudo isso parece desconectado das obrigações, do trabalho, da carreira, da vida familiar. Mas nada está separado de nós. Somos humanos justamente porque interagimos com aquilo que nos cerca.
A irritabilidade aponta para algo em nós que está sem atenção; a má qualidade do sono ou as noites em claro indicam que corpo e mente já estão esgotados e precisam de cuidado.
Certa vez, tive dores lombares terríveis e tomava analgésicos para amenizá-las, tentando eliminar o sintoma. Até que, um dia, travei completamente e mal conseguia mexer as pernas. Fui ao ortopedista, que me passou um tratamento medicamentoso. Em cinco dias, melhorei. Mas, no mês seguinte, a dor voltou, pior.
Comentando com minha psicóloga, ela perguntou: “Quantas horas você está ficando sentada em frente ao computador?” Imediatamente pensei: muitas horas. Sem contar a qualidade da cadeira, que era péssima, e a rotina exaustiva do trabalho durante a pandemia.
A dor estava dialogando sobre como eu estava levando a vida: excesso de trabalho, falta de exercício físico, tempo excessivo de tela. Eu poderia seguir a medicação corretamente, mas sem mudar minha rotina, nada se transformaria.
A proposta de diálogo com meu sintoma foi simples: mais água, mais luz natural, mais verde, mais movimento. E a dor não voltou mais. Não aquela.
Essa conversa não é apenas sobre dor na lombar. É sobre quando colocamos nossa vida a serviço de coisas que nos adoecem e insistimos em caber em padrões que não são nossos.
O sintoma não é inimigo: é uma linguagem que fala sobre nós, sobre o que temos negligenciado. Ignorá-lo é silenciar a si mesmo.
E se, em vez de fugir do incômodo, você parasse para ouvir? Até quando vai adiar a sua própria vida para agradar ao mundo?




