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Depressão: o que está por trás do sintoma
novembro 18, 2025O mundo, como se apresenta, traz consigo normas, regras e afirmações. Ao nascermos, somos lançados em um cenário já em andamento, no qual a localidade, a família e a cultura moldam nossas experiências. Podemos aprender a amar comer grilos, considerar vacas como entidades espirituais sagradas ou esperar o ano inteiro para uma festa que dura apenas quatro dias, marcada por samba, suor e batuque: O Carnaval do Brasil. Essa pequena divagação mostra que nascer não nos dá garantias, apenas a ilusão de inúmeras possibilidades. E é justamente aí que está o nó: aquilo que nos é ofertado, dependendo do lugar, do tempo e das circunstâncias, pode parecer liberdade, mas na verdade se revela mais como prisão do que como escolha.
As tradições e práticas que já existiam antes de nosso nascimento podem se tornar verdadeiros cárceres. Imagine nascer mulher em um país de tradições religiosas rígidas, onde até as roupas, o modo de falar e de se expressar já estão determinados. Ou nascer homem em uma comunidade rural, em que a economia depende da agricultura e a profissão é transmitida de geração em geração. Em ambos os casos, torna-se difícil distinguir o que é vontade própria daquilo que o mundo impôs. Seguimos por trilhos prontos, regulados por forças que muitas vezes desconhecemos.
De um lado, pode parecer reconfortante acreditar em um caminho seguro e reto. De outro, a vida se encarrega de mostrar que essa promessa não se sustenta. Ela é incontrolável: problemas surgem, faltas doem, excessos entorpecem. Então nos perguntamos: esses desejos eram realmente nossos ou apenas reflexos do mundo? É nesse ponto que surgem as rachaduras, prenúncios de que o chão sólido pode ceder a qualquer momento.
A boa notícia é que toda tensão é também oportunidade. Quando nossas bases estremecem, abre-se a chance de olhar a vida de outro ângulo. A má notícia é que não há certezas: a queda é incerta, e seu tempo de duração, imprevisível. Nessas horas, o desejo mais comum é que alguém nos explique o que acontece, antecipe o futuro, nos salve da angústia e nos diga o que fazer. No entanto, aceitar esse tipo de tutela é abdicar do controle da própria vida, permitindo que forças externas nos moldem.
Ser livre parece fácil, mas não é. A liberdade não se resume a fazer apenas o que se deseja. Ser livre é, antes de tudo, responsabilizar-se pelas próprias escolhas. Por isso, embora grande parte da humanidade anseie pela liberdade, ao menor sinal de angústia corre para o refúgio das normas estabelecidas, tenta silenciar as rachaduras que anunciam mudanças e foge da dor. Mas a dor existe, inevitável, mesmo quando tentamos disfarçar o curso da vida.
A grande pergunta a se fazer é: eu quero mesmo ser livre? Se a resposta for sim, é preciso estar preparado para um reencontro arrebatador consigo mesmo. Esse encontro não é feito apenas de luz: nele também surgem as partes azedas, tortas, desgastadas. São lados que podem ferir como espinhos, porque a verdade é que ninguém é apenas bom, por mais que goste de parecer.
Esse reencontro é decisivo, pois somente ao aceitar nossas sombras, nossas feridas e distorções, abre-se a possibilidade de criar um caminho autêntico, ajustado ao nosso próprio compasso. Não o compasso do mundo, mas o nosso. É nesse terreno, onde o real e o imperfeito se encontram, que a vida pode ganhar uma medida mais verdadeira.
Quando isso acontece, sofrimentos que nos acompanham há anos, e que muitas vezes nem sabíamos de onde vinham, começam a se dissolver. É exatamente isso que o processo da análise existencial propõe: deslocar, desmontar, para que o indivíduo possa se refazer. Remontar-se de forma mais íntegra, mais inteira, mais próxima daquilo que realmente é.
E talvez aí resida o mais profundo da liberdade: suportar a dor de se ver por completo para, enfim, sustentar a leveza de existir de forma autêntica.
09/09/2025




